Do lixo ao indivíduo.
O meio de acabar com a supremacia da Salustina era roubar àquele lixeiro e retê-lo no meu abrigo. A velha há anos que morria e vivia, decrépita e sem família não necesssitaria de uma lixeiro para seus últimos dias.
Eu -mancebo- vivendo nos tempos aúreos de um homem, precisava jogar fora todo um conjunto de lixos e utensílios supérfluos . Minha casa já tornara-se um verdadeiro monturo, pilhas de lixo na varanda, outras na cozinha; apenas deixei a salvo minha escrivania, onde passo a maior parte do meu tempo e o único lugar que não cheira a sarro.
Nunca tive ímpetos de um celerado, porém, precisava daquele lixeiro e a vida de dona Salutina expirava em sua pele engelhada. Tracei em uma folha planos para um homícidio sereno, já tinha assistido muitos filmes e estava na metade do Chefão, com tudo isso possuia um vasto conhecimento de assassinatos, sem ter cometido ao menos um furto. Urgia que convencesse os vizinhos sobre o lixeiro, seria o último desejo da dona Salustina, seria espólio dela para seu dileto vizinho.
***
Em uma noite quando a lua quase tocava meus pés com sua calda alva, escolhi para ser a derradeira da Salustina. Cogitei em uma hora, não poderia ser cedo, muito menos tarde; acertei o relógio para às duas horas da manhã, quem estaria acordado às duas horas? Eu estaria, mas dona Salustina com o fôlego débil e àquele reumatismo cujo não mexia-se da posição em que se deitava. Talvez até morta estaria, minha incumbência era só esperar o alvorecer e avisar os vizinhos.
Chegada à hora sai de casa e vislumbrei na casa da dona Salustina uma luz tênue que adensava-se na madeira do pinheiro. Pela janela avistei dona Salustina com um gato alvacento e um cachorro velho. O cachorro estava tisnado pelo velho fogão a lenha, parecia ser ela o patriarca da casa, trabalhava, trazia o leite, fazia o fogo e acalentava dona Salustina nos dias de frio. Reti-me naquele imagem familiar e vi o quê a vida não proporcionava-me. Na porta bati e com dona Salustina passei à madrugada escutando anedotas do seu passado majestoso.

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